terça-feira, 15 de julho de 2008

Meditando Lucas 15, 11-32.

A ditadura da beleza.

O que atraiu o filho que saiu de casa foi à ditadura da beleza. A beleza do desconhecido, da independência, a fama que o dinheiro podia trazer, as mulheres, a liberdade...
Segundo o pedagogo e poeta Rubem Alves a beleza é capaz de tornar os indivíduos cegos, alucinados, sem rumo, movidos por impulsos: “... A beleza tem um efeito embriagante. Quando a alma é tocada por ela, a cabeça não faz perguntas. Tudo é êxtase e encantamento”.
Essa foi a maior descoberta do filho... A beleza passa e está nos olhos de quem vê. O pai, mais experiente, poderia poupar o filho dessa experiência trágica. E porque o pai não fez isso? Permitiu que o filho visse o que é real, experimentasse coisas terríveis para se encontrar, fosse rejeitado... Todos esses fatos fizeram parte da pedagogia desse pai, que quis dar ao filho um novo conceito de beleza, uma beleza que nasce de feridas.
E prossegue Rubem Alves: “A verdadeira beleza nasce de feridas. As feridas a produzem para que a dor seja suportável...”.
O filho precisava viver essas experiências. A vida desregrada o fez sentir-se vazio, a falta de dinheiro o fez rejeitado por quem antes o exaltava, a pobreza e o trabalho escravo o fez sentir excluído. A suposta beleza acabou de várias formas, gerando no coração uma grande ferida: a ausência...

Purificação do coração!

“Vou-me embora, procurar meu Pai...” Lc 15, 18. Essa frase consolidou o processo de purificação do coração daquele filho.
“A purificação do coração é muito necessária quando iniciamos partir em busca de Deus. É preciso dizer ‘adeus’ a tudo e ao mesmo tempo a nada, porque tudo diante dele se torna nada. É preciso cortar as amarras de tudo que pode nos desviar ou roubar de Deus. Essa separação de tudo, isto é: de coisas, de pessoas e até de nós mesmos, não está no afastamento, mas sim no desapego de tudo. Cada estilo de vida exige um desapego...” (Perdigão, Germana. Ensinos para grupos de oração; 2ª fase. Ed. Shalom, 2001. 4ª edição).
Santa Teresa ensina-nos que o desapego não é um pequeno benefício, mas ao contrário, proporciona-nos a felicidade de darmos totalmente e sem partilhas àquele que é o nosso tudo. O desapego é fruto da atitude de colocar Deus no centro das nossas vidas. “Quem tende a possuir, por isso mesmo apega-se fica atado, escravo, possuído pelo que possui. Essa situação torna impossível ser próximo de Deus”.(Teresa de Jesus, Santa. Caminho de perfeição. Ed. Paulinas, 4ª edição, 1979).
Àquele filho rebelde começou a entender que a verdadeira pobreza não é poder ter coisas ou não tê-las, mas é não ser possuído por elas, percebeu que a castidade não é somente uma questão sexual, mas é ser livre para Amar e Amar livremente pelo que se é, e, que a obediência é fruto do Amor, de não ser possuído por nada e fazer a vontade do pai por Amor...
Digamos que o filho trilhou o caminho da dor para descobrir a felicidade da casa do pai. “Trata-me como um dos teus empregados” Lc 15, 19b. Era o desejo dele, mas não foi bem isso que aconteceu, como já sabemos...

O filho mais velho.

E o filho mais velho? O que houve com ele? Onde estava ele no decorrer de toda a história? Os fatos vividos pelo filho caçula são tão marcantes que nem notamos sua presença, até que ele soltando palavras que se tornaram pérolas marcantes nos fazem conhecer nuances de seu caráter, idéias que pairam na sua inteligência, bases de sua personalidade, é que ele vai se tornar uma personagem chave no desfecho de nossa parábola.
A idéia aqui, não é torná-lo um vilão, de forma alguma, mas é de despertar o desejo de compreender a profundidade da mensagem de Jesus, entendermos que nesta família, ambos os filhos estavam distantes do pai...

A ilusão de ser justo.

Aquele irmão mais velho, apesar de todo esforço por fazer “coisas” durante a ausência do irmão caçula, sofria da ilusão de ser um filho justo, certinho. Vejamos o que nos diz Amadeo Cencini: “Sem nos admirarmos nem nos mostrarmos demasiadamente ofendidos, convençamo-nos imediatamente do seguinte: mantemos em nossa vida uma estranha relação com o mal. Uma relação que podemos definir como amor-ódio. Não queremos admitir nossa falibilidade, como que nos apavoramos com elas e recorremos a mil artifícios para afastar de nós a impressão de que erramos... Isso é considerado um desejo autêntico e excêntrico de perfeição. Proclamamos que somos pecadores, mas não nos sentimos como tais, principalmente quando nos comparamos com os outros pecadores. Ou pelo contrário, nos sentimos esmagados pelo nosso pecado, incapazes de reagir, também aí nos proclamamos pecadores, mas nos incomodamos com a idéia de os outros são melhores que nós...”.
“Seu filho mais velho estava no campo. Quando voltava, já perto de casa ouviu música e danças. Chamando um servo, perguntou-lhe o que estava acontecendo. E este lhe disse: ‘É teu irmão que voltou e teu pai matou um novilho cevado, porque o recuperou com saúde’. Então ele ficou com muita raiva e não queria entrar”Lc 15, 25-27 a.
As perguntas na cabecinha daquele pobrezinho foram inúmeras: O que ele tem melhor do que eu? Porque ele ganha um churrasco depois de tudo o que fez e eu nem um muito obrigado? Eu que trabalho dia todo, eu que me mato...
Com certeza muitos outros questionamentos ferveram. O que é fato é que uma intimidade gera uma confiança nas decisões e nas escolhas do pai. Ele (o irmão mais velho) poderia até deduzir àquela atitude do pai e sem dúvidas teria ido ao encontro do irmão se existisse uma convivência estreita com o pai, certamente teria entrado e festejado com todos os outros. Supomos muitas outras atitudes de um filho desconfiado: Inveja, usurpação, e outras tantas...A cegueira gerada pelo orgulho de ser compensado pelos serviços prestados era tão grande que ele nem conseguia se enxergar tudo isso.
“... O ser humano não pode jamais eliminar totalmente da sua vida o mal. Faz parte da nossa história, liga-se profundamente a nosso coração. Revela muita simploriedade quem acredita poder ficar isento dele. É importante, sobretudo, compreender que essa presunção falseia o nosso relacionamento com Deus. Mesmo escondendo-se atrás de propósitos de santidade, de dedicação apostólica, ela (a síndrome da perfeição) provém de uma sutil ambição narcisista, que será traída pelos seus próprios frutos. O mal, não absolutamente cancelado surgirá com muita força, com a desilusão ocorrerá à raiva contra a si mesmo, e a intransigência diante do mal do outro”.(Cencini, Amadeo, Idem acima)” .
“... Seu pai saiu para suplicar-lhe. Ele, porém respondeu ao seu pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, e jamais transgredi um dos teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos. Contudo, veio esse seu filho, que devorou seus bens com prostitutas, para ele matas o novilho cevado!’”. Lc 15, 28b-30.

A caridade fraterna

O Amor fraterno, ou caridade fraterna é um dos alicerces da vida de uma pessoa íntima de Deus. Uma pessoa orante não pode ter amizade com Deus se não tem amizade com os irmãos. Não se pode comprometer com Deus quem não se compromete com os irmãos. Não se pode entregar a vida a Deus quem não entrega a vida pelos irmãos: “A intimidade com Deus gera fraternidade. A autenticidade dessa intimidade revela-se na dimensão comunitária. O trato com Deus leva-nos ao trato com os irmãos e qualifica-o”. (Sciadini, Patrício, OCD. À procura de Deus. São Paulo, Ed.Loyola, pg 55).
Um dos grandes milagres de nossa parábola é que o próprio pai age como mediador entre as fraquezas dos filhos, sem ser pretensioso, ou acusador, mas unindo os filhos naquilo que eles tem em comum: O pai... Podemos chamar àquela família, ou nossas famílias de comunidade: “A comunidade não pode construir-se e continuar vivendo fora de uma lógica de perdão. Não é exagerado dizer que o perdão é o coração da vida comunitária. A reconciliação impede que o mal fique oculto, se me expresso exponho-me, ajudo a comunidade a crescer e a se tornar mais unida. Não há comunidade sem perdão. Viver junto com os outros, faz-nos descobrir a verdade do nosso próprio eu, quando alguém vive sozinho pode iludir-se que é bom. Contudo, vivendo com os outros começa a descobrir um eu diferente, cheio de imprevistos, limitações e egoísmos, de desejos insaciáveis e de frustrações, ciúmes, ódio e agressividade. A comunidade revela os monstros que moram em nós...” (Cencini, Amadeo. Idem acima.).
“Mas o pai lhe disse: Filho, tu estás sempre comigo, tudo o que é meu é teu. Mas era preciso que festejássemos e nos alegrássemos, pois esse seu irmão estava morto e voltou a viver; ele estava perdido e foi reencontrado..” Lc 15, 31-32.

Entre a rejeição e a distorção...

“Certa feita, durante a quaresma, Francisco de Assis resolveu jejuar como Jesus Cristo: foi para uma ilha deserta com a intenção de nada comer durante os quarenta dias, levando consigo, porém, dois pães para o caso de não conseguir resistir a tamanho sacrifício... Passaram-se as semanas até que, faltando apenas um dia para encerrar a quaresma, Francisco de Assis começou a comemorar. Afinal, não tinha sido fácil resistir por tanto tempo, sofrendo na própria pele o mesmo sofrimento do Senhor. Todavia, na alegria de estar superando a tentação, tal comemoração começou a dar lugar a vanglória . Francisco se assustou! Estava se sentindo tão bom quanto o próprio Jesus Cristo. E assim, para extinguir a vaidade em seu ser, Francisco comeu um pequeno pedaço de pão, mesmo podendo resistir a fome, apenas para entender que, por mais que fizesse, jamais seria bom o suficiente...” (Biografia de São Francisco de Assis, “I Fioretti”, capítulo 7, publicado por várias editoras).
Ambos os filhos podiam ter a pretensão de ter sido ‘curados’ de suas mazelas, mas essa não era a intenção de Jesus com essa parábola, a intenção era de nos fazer compreender que o pai nos conhece muito bem, sabe que somos limitados, que sempre estaremos entre o pecado e desejo pela perfeição... Ambos os filhos só alcançam os pequenos feitos por causa da mediação do pai. O maior ensinamento do pai para àqueles filhos foi à humildade, ou seja, a verdade de quem eles realmente eram.
Como experimentou Francisco: “ A humildade é a verdade” (Teresa de Jesus). Como diz São Paulo: “Se vivemos pelo Espírito, pelo Espírito Santo pautemos também a nossa conduta. Não sejamos cobiçosos da glória passageira (vanglória)...” Gal 5, 25.